A ORIGEM DO FUTEBOL SUL-MATOGROSSENSE
Mato
Grosso via o futebol nascer oficialmente em 30 de agosto de 1938, com a fundação
da LEMA – Liga Esportiva Municipal de Amadores, que mais tarde passaria a se
chamar LIGA ESPORTIVA MUNICIPAL CAMPOGRANDENSE (LEMC), que durou 40 anos,
marcados pelo sucesso do futebol.
A
exemplo de Campo Grande, Corumbá também praticava as mais variadas modalidades
de esporte e ao mesmo tempo se organizava juridicamente, fundando a Federação
Mato-grossense de Desportos, tornando-se entidade “máster”, até 1914,
quando Getúlio Vargas estabeleceu as primeiras bases para a organização do
desporto em todo o país, tirando o controle esportivo de Corumbá e passando
para a capital de Cuiabá.
Era
o início do sofrimento do futebol no sul do Estado. A confecção da lei não
observava detalhes como os fatores geográficos brasileiros. Mato Grosso estava
com uma distância de 700 Km de sua mais importante cidade do interior, que era
Campo Grande. Não havia estradas nem telefones, prevalecendo rivalidades e
bairrismos.
Entretanto,
apesar de todos os percalços, as dificuldades foram sendo superadas. Foram
formando-se comissões para resgatar o futebol que havia sido abandonado pelo
norte. Uma dessas comissões, formada por Elias Gadia e Radio Maia, chegou até
o Rio de Janeiro, fazendo sugestões e solicitações no intuito de buscar soluções
para o futebol.
Grandes
nomes passaram pela presidência da Liga e todos, sempre, lutaram com abnegação
para superar os obstáculos da caminhada pelo esporte.
O
PRIMEIRO CONGRESSO ESPORTIVO
Foi
com alegria e entusiasmo que Campo Grande recebeu a notícia de que sediaria o I
Congresso Esportivo, que se realizaria em setembro de 1963. Os dirigentes
campo-grandenses se envolveram totalmente nos preparativos para o evento,
afinal, além de ser a primeira vez que a cidade morena recebia um congresso de
esportes, o presidente da Federação Nacional estaria em Campo Grande, no
Centro Beneficente Português, local das atividades.
O
ambiente era de festa. O Aeroporto Antônio João recebia inúmeros
desportistas, ansiosos para dar as boas vindas ao presidente. E foi no dia 18 de
setembro, que o Centro Português ficou lotado com os desportistas. Autoridades
e importantes nomes do futebol estadual e nacional: representantes de cidades
como Jardim, Corumbá, Três Lagoas, Dourados e Bela Vista.
O
sucesso do evento foi tamanho que, no segundo dia de reunião, já havia sido
marcado o II Congresso, que aconteceria em janeiro, dessa vez em Dourados.
Discutiu-se também a realização dos campeonatos integrados. Era a
profissionalização do esporte na região. O final do Congresso foi marcado por
uma renovação nas esperanças dos participantes. Era a nova fase do futebol
regional.
Entretanto,
na primeira semana do mês de janeiro, tem-se a notícia, vinda de Cuiabá,
através de um telegrama, que o Presidente e o Vice-Presidente da Federação
haviam sido afastados por cometer irregularidades. A dúvida pairava na mente de
todos.
Não
se sabia ao certo se o verdadeiro motivo do afastamento era esse. Cogitava-se
que a razão autêntica era o ciúme e o desejo de vingança pelo primeiro
congresso ter sido realizado na região sul. Era o fim das esperanças e o
retorno do distanciamento da capital com o futebol no sul. Mas a persistências
dos dirigentes não parou por aí.
UMA
NOVA FASE
No
ano de 1967, o Estado era marcado por um governo que, além de ter nascido no
sul, preocupava-se com o esporte. A LEMC, formada por uma equipe homogênea,
tinha como presidente Levy Dias. Foi no final da década de 60 que um grande
sonho começa a ser idealizado: a construção de um estádio.
Possuir
um estádio era uma questão de honra, pois os jogos aconteciam de forma amadora
no Belmar Fidalgo. A idealização do estádio exigia empenho e dedicação em
campanhas de sensibilização junto à população e ao governo. O início da
construção do Morenão veio trazer uma nova época para o futebol. Época de
otimismo, de esperanças, de uma nova mentalidade no esporte estadual.
Os
times escolhidos para inaugurar o Morenão, em 1971, Flamengo e Corinthians,
abrilhantaram o evento, pois em Campo Grande só havia times amadores. O tão
sonhado estádio começava a sediar campeonatos importantes.Os primeiros times
estaduais a se profissionalizarem foram o Operário Futebol Clube e o Esporte
Clube Comercial, que passaram também a participar dos campeonatos nacionais.
Após
a profissionalização dos clubes, todos os campeonatos foram vencidos pelos
times de Campo Grande, mostrando a força e evolução conseguida depois de anos
de batalhas.

A
Diretoria da LEMC lutou e conseguiu o "Morenão". Levy Dias, Elias
Gadia, Alcídio Pimentel, José Borges de Barros, Cid Pinto Barbosa, Gilberto
Santiago, Tenente Ubaldino, Mario Mendonça, Valdir Cardoso, Benedito Farias,
José Sebastião da Silva e outros, realmente uma "seleção" que não
podia perder.
NASCE
A FEDERAÇÃO
Um
grupo de trabalho deu início a uma série de reuniões sigilosas com a idéia
de criar uma instituição, que seria a Federação para Mato Grosso do Sul. As
reuniões eram realizadas, geralmente, em fundos dos quintais de algumas residências.
Entre uma reunião e outra, surge a idéia de fazer um Estatuto para a futura
Federação.
Em
1977, nasce o Estado de Mato Grosso do Sul, tendo Campo grande como sua capital.
E com isso, surge também a oportunidade de deslanchar a Federação.
Dentre
muitas reuniões, uma realizada na residência do então presidente do E.C.
Comercial decidiu que a assembléia geral de fundação seria no dia 10 de
dezembro.
A
expectativa era grande. Já se passavam 40 anos de um trabalho árduo em prol do
futebol e do esporte. Mesmo cansados, a esperança se renovava na mente e no
coração de cada idealizador da Federação.
Entretanto,
após saber de "estranhas" articulações com ligações esportivas
locais, resolveu-se antecipar a data da assembléia para o dia 03 de dezembro. O
edital de convocação que circulava nas redações e que foi publicado no dia
seguinte causava surpresa tanto para a imprensa quanto para a população. O
problema era saber a legalidade do fato, já que o governo de Mato Grosso do Sul
só seria instalado no ano seguinte, em 1979.
Dois
dias antes da assembléia, um telex ameaça punir as ligas e clubes que
participarem do evento. Foi aí que se decidiu convocar uma nova reunião, desta
vez na sede o Operário, onde se confirmou a realização da assembléia.
Chega
o grande dia. A sede do Clube Atlético Noroeste, onde foi realizada a assembléia,
estava lotada. Como era esperada, a opinião geral foi favorável, não havia
sido feita nenhuma objeção e, após, colher os votos, todos favoráveis, é
declarada a fundação da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul. Marcelo
Miranda, que era o prefeito naquela época, estava presente, bem como
presidentes das ligas de cidades do interior, representantes da Câmara
Municipal, dirigentes de clubes, entre outros.
Um
sonho estava sendo realizado e, ao contrário do que parecia, não era o fim de
um trabalho, mas a continuação de uma luta que já vinha há quatro décadas.
Aí o motivo das lágrimas e da alegria incessante.
Na
segunda-feira, o Jornal Correio do Estado estampava a manchete: “Federação
foi criada: o futebol liberta-se“.

A
sede do Clube Atlético Noroeste Foi pequena para acolher os deportistas, mas
tudo foi realizado dentro dos princípios da ordem e da democracia.
A
NOSSA FEDERAÇÃO DE FUTEBOL NASCEU LIVRE, NESTE DOMINGO.
|
|
Apesar
de mais uma tentativa de boicote do vitalício e inexpressivo interventor da
Federação Mato-grossense de Desportos, foi criada num domingo, ontem, a Federação
de Futebol do Mato Grosso do Sul, que nasceu livre com o apoio de desportistas,
de vereadores e do próprio prefeito Marcelo Miranda, que compareceu à reunião
histórica para hipotecar o apoio da municipalidade e garantir que estará
empunhando essa nova bandeira da liberdade esportiva sempre que necessário.
A
assembléia foi iniciada às 9,15 horas, na sede do Clube Atlético Noroeste e
reuniu representantes de 22 agremiações futebolísticas amadoras, três
profissionais (Operário, Comercial e Sociedade Esportiva Industriaria) e cinco
ligas municipais. Depois de criada a FFMS, aprovados os estatutos sociais, foi
eleita a primeira diretoria provisória, tendo como presidente Heldir Paniago,
ex-presidente do Operário.
Hoje
o primeiro presidente da FFMS segue para o Rio de Janeiro, levando a ata de criação
da nova Federação bem como os estatutos para que sejam submetidos à apreciação
da Confederação Brasileira de Desportos e do Conselho Nacional dos Desportos,
para a homologação oficial. Caberá a CBD e ao CND decidir, também, se a
diretoria ontem eleita será apenas provisória ou se deverá ser mantida.
No
sábado, na tentativa de mais um boicote, chegou a Campo Grande o interventor
Carlos Orione, que se pretende radicar-se no Mato Grosso do Sul após a divisão
e continuar uma interventoria vitalícia. Ele, entretanto, foi mal sucedido em
sua tentativa e embarcou novamente para Cuiabá ao meio dia de ontem, certo de
que sofreu a sua grande derrota, mas uma vez, prejudicar nosso Estado. Sua
presença em Campo Grande, inclusive, nem foi anotada pelos desportistas que
criaram a FFMS.
FEDERAÇÃO FOI CRIADA: O FUTEBOL LIBERTA-SE
|
|
A
Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul - FFMS - já existe desde as 10:20
horas de ontem, quando foi criada em assembléia geral, realizada no salão de
festa do Clube Atlético Noroeste, com a presença de 22 clubes amadores, três
profissionais e cinco ligas (à exceção da LEMC, que não teria direito a
voto). Apesar da nota oficial divulgada na sexta-feira pelo interventor na FMD,
Carlos Orione, proibindo tal manifestação e ameaçando os clubes e ligas
filiadas, houve a união de todos os desportistas sul-mato-grossense e a federação
foi criada, libertando o futebol das garras da Federação Mato-grossense de
Desportos.
Agora,
resta apenas a homologação da CBD e CND. Após a criação da nova federação,
os estatutos sociais, elaborados com a orientação do jurista esportivo Valed
Perry, foram aprovados por unanimidade, sem que houvesse discussão de cada um
dos 90 parágrafos. Em seguida, também por aclamação, foi eleita a primeira
diretoria (provisória ou não, cuja definição depende da CBD e CND) da Federação
de Futebol de Mato Grosso do Sul, tendo como presidente o desportista Heldir
Ferrari Paniago, um dos responsáveis pelo movimento que originou na criação
da nova entidade.
Exatamente
às 10:12 horas após o uso da palavra do ex-jogador e ex-técnico Arlindo
Caldas, o presidente de mesa, coronel Paulo Américo dos Reis, declarava criada
a FFMS. Todos os desportistas presente à assembléia geral, emocionados, se
levantaram e bateram palmas. Alguns se abraçavam; outros, como o secretário da
mesa e integrante do movimento, Cid pinto Barbosa, não se conteve e chorou.
"Tinha que me emocionar. Afinal conseguimos realizar um sonho, apesar de
terem existido alguns camaradas (entre os quais Orione) que procuraram bagunçar
nosso trabalho, em elaboração há um ano", disse Cid, depois.
Após
ser declarada criada a nova federação, houve uma pausa de meia hora. A última
etapa da assembléia geral foi à aprovação dos estatutos sociais e eleição
da primeira diretoria. Por proposição do presidente da Liga Esportiva
Corumbaense, Ubiratan de Campos, os estatutos foram aprovados por unanimidade
sem que houvesse a necessidade de se discutir parágrafo. Em seguida, foram
apresentadas duas chapas para concorrer à primeira diretoria - uma dos amadores
e outra dos clubes profissionais de Campo Grande -, ambas, porém, iguais. Por
isso, não foi necessário o voto secreto e o presidente Heldir Paniago foi
eleito por aclamação.
O
prefeito Marcelo Miranda assistiu a assembléia geral, permanecendo no recinto
até a criação da FFMS, dando seu apoio à iniciativa dos desportistas do Sul.
Marcelo fez parte da mesa, que esteve composta ainda pelas seguintes pessoas:
Paulo Américo dos Reis (escolhido para presidente por dirigir o Operário,
clube mais antigo de Campo Grande), Cid Pinto Barbosa (secretário), Waldir
Cardoso (representando a Câmara Municipal), Ubiratan de Campos (Liga de Corumbá),
Jamil de Campos Aum (Liga de Dourados), Neide Castilho (Liga de Coxim), Maurício
Duailibi (Liga de Camapuã), Felisberto D'Ávila Neto (SEI), Albino Coimbra
(Comercial), José Carlos da Silva (Internacional) e Sebastião Sérgio de Melo
(Coríntians).
A
primeira diretoria eleita é composta dos seguintes desportistas: presidente,
Heldir Ferrari Paniago; 1º vice-presidente, Alfredo Zamlutti Júnior (de Corumbá);
2º vice-presidente, Jamil de Campos Aum (de Dourados); Conselho Fiscal: Nagib
Ouríveis, Júlio da Silva e José Borges de Barros, efetivos, e Hilton Cassiano
(Aquidauana), Edmundo da Costa Neto e Haroldo Nascimento Silva, suplentes. A
federação vai funcionar, provisoriamente, nas dependências do Clube Atlético
Noroeste. As cores de sua bandeira são as mesmas do Mato Grosso do Sul, tendo
ao centro um triângulo com as iniciais FFMS.
Fonte: CORREIO DO ESTADO - ANO XXV - 04 DE DEZEMBRO DE
1978.
COMO
UM GRITO DE INDEPENDÊNCIA
A
criação de nossa federação, pelos obstáculos que surgiram e pela importância
para nosso futebol, representa para todos nós o mesmo que representou para o
Brasil a sua independência (Felisberto D'Ávila Neto, presidente da SEI,
durante a palavra livre).
Logo
que a sessão teve início, às 9:15 horas, e composta a mesa, foi dada a
palavra livre e as críticas ao interventor Carlos Orione foram a maiores possíveis,
conforme se esperava. A começar pelo presidente do Comercial, Albino Coimbra,
que afirmou que "O futebol do Sul foi lesado pelas pessoas do Sr.
interventor".
Qualquer
sansão que venha a surgir receberemos com satisfação porque estaremos
beneficiando nosso futebol. O que não podemos é aceitar as regras do jogo da
FMD, partindo de uma pessoa (Orione) que nada fez pelo futebol do Sul e sim em
benefício próprio. Uma das metas da nova federação é incentivar o prata da
casa e não podemos começar importando um presidente para a mesma - concluiu o
dirigente comercialino.
O
vereador Waldir Cardoso também foi severo: "É chegado o momento de
acabarmos com o abuso dessa interventoria", lembrando que momentos antes da
assembléia geral foi à casa do veterano desportista Elias Gadia (que não pode
comparecer a reunião porque está doente) e falava em nome daquele que foi
muitos anos secretários do Operário e da LEMC.
Falaram
também o presidente da Liga de Dourados, Jamil de Campos Aum, afirmando que
"Não tememos qualquer punição da Federação Mato-grossense de
Desportos"; o ex-jogador e ex-técnico no amadorismo, Arlindo Caldas, que
lembrou até de uma passagem sua pela seleção do Estado, em 1952, quando
"Era negado até refeições para o pessoal do Sul"; o presidente da
Liga de Corumbá, Ubiratan de Campos, que reclamou do abandono que sua cidade
teve até agora, em termos de apoio da FMD; e a vereadora Nelly Bacha, que pediu
apoio ao futebol amador.
Pessoas
alheias àquele movimento também assistiram a assembléia, como um vendedor de
bilhetes, em cuja pasta, por coincidência ou não, continha uma frase da seita
Seicho-No-Ei: "Vejam Eu nasci. Felicidades vêm a mim". No final da
assembléia, já eleito primeiro presidente da Federação de futebol do Mato
Grosso do Sul, Heldir Ferrari Paniago lamentava:
Não
entendemos porque o desporto não houve a mesma união que imperou em outras áreas
após a criação do Mato Grosso do Sul. Se isto que acabamos de fazer aqui é
um ato de rebeldia, podem ter certeza os senhores que é uma rebeldia
consciente.
Fonte: CORREIO DO ESTADO - ANO XXV - 04 DE DEZEMBRO DE
1978.